A guerra e a ocupação militar e política dos Estados Unidos, terminaram nesse dia, definitivamente.

Tinha passado mais de uma década desde que, em agosto de 1964, o governo dos Estados Unidos, presidido então por Lyndon B. Johnson, tinha cometido a grande fraude do auto agressão a um navio norte-americano.

O fato foi conhecido como "acontecimentos do Golfo de Tonkín" e serviu de pretexto para iniciar a guerra aérea de destruição contra o Norte do Vietnã e justificar a guerra especial no Sul.

Na realidade, desde 1971 os estadunidenses tinham começado a perder a guerra quando não puderam controlar as fronteiras entre Vietnã, Laos e Cambodja pela estrada 9 e o Pentágono tinha sido derrotado em sua guerra meteorológica que tinha como objetivos atingir os diques e represas do Norte.

As forças de Lon Nol e Sirik Matak, em Cambodja, estavam na bancarrota, as áreas libertadas abarcavam mais de 50 por cento dos cenários da guerra, e uma forte ofensiva militar dos patriotas do Sul obrigou à Casa Branca a assinar os acordos de Paris de 27 de janeiro de 1973 para restabelecer a paz no Norte.

Mas Estados Unidos não se rendeu e o presidente de então, Richard M. Nixon, mantinha sua febril e veemente ideia de dominar e acabar com as forças de libertação.

Os ocupacionistas tinham despregados nas cinco zonas militares em que dividiram o Sul do país a um milhão 200 mil soldados saigoneses agrupados em 13 divisões, sem incluir ao pessoal da marinha e a aviação, esta última dotada com mil 800 aparelhos táticos, a metade deles helicópteros, mil 400 unidades de superfície, duas mil embarcações fluviais sofisticadas equipes de comunicações e de outras especialidades.

Contavam também com cinco super portos, numerosas bases aeronavais, como as de Da Nang, a maior do mundo então, Cam Ranh, 10 aeroportos de envergadura como o de Tan San Nhut em Saigon e 200 médios e pequenos.

Diante do evidente deterioramento da situação do inimigo, e as flagrantes violações dos acordos de Paris por parte de Washington, o comando político vietnamita instruiu o Estado Maior de suas forças armadas, a preparar a batalha final pela libertação quando mal começava no ano 1974.

A primeira prova produziu-se com a batalha contra a base de Phuoc Long onde tinha localizados cinco mil soldados do regime saigonês.

A essa vitória sucederam outras muitas as quais determinaram que o Comitê Central escolhesse o 10 de março de 1975 como a data para lançar a grande ofensiva final.

O ponto de partida foi a cobiçada Buon Me Thuot, nas mesetas centrais, onde as forças de libertação, em lugar de atacar a periferia como acostumavam, se concentraram na cidade e desde ali arremeteram contra as bases exteriores às que deixaram isoladas.

Dessa maneira, deixaram dividido o país à metade debilitando às tropas inimigas, o que possibilitou que fossem caindo gradativamente os baluartes militares como Pleikú, Che Réu, Hue, Dá Nang, Nha Trang, Luang Tri e muitos outros.

A longa e fortificada corrente de bases e acampamentos militares saigoneses em toda a extensão do país foi caindo como um dominó a uma velocidade surpreendente.

Assim o percebíamos que nesse momento estávamos em Hanói e corroborávamos com os especialistas militares que nossos anfitriões do Norte punham a nossa disposição para ter em primeira mão notícias do que acontecia e fazer reportagens fiéis para nossos meios de comunicação.

Durante os dias 26, 27 e 28 de abril a ofensiva patriota generalizou-se por toda a faixa costeira e permitiu consolidar o domínio das regiões militares I e II.

Aquilo determinou a decisão do Comitê Central de ordenar a Operação Ho Chi Minh pela libertação de Saigon, que originalmente não estava no plano, segundo nos explicaram ulteriormente os chefes da ofensiva.

A batalha final iniciou-se com combates encarniçados em Long Binh, Xuan Loc, Bem Hoa e Cu Chi, casa por casa e polegada a polegada, para romper o famoso cordão sanitário que protegia militarmente à capital sul.

A Operação Ho Chi Minh foi fulminante e durou menos de 48 horas.

No dia 28, vendo já indefectivelmente perdido o regime de Nguyen Van Thieu, o embaixador estadunidense Graham Martin fugiu de Saigon do sótão da sede diplomática em um helicóptero, vexatória cena que ficou impressa para a história em jornais, revistas e filmes.

Às 13.30 do 30 de abril de 1975, três tanques PT76 e dois tanquetas norte-americanas repletas de jubilosos combatentes revolucionários, baixavam a toda velocidade pela rua Pesteur para o rio Mekong no meio de aclamações; chegaram ao Palácio Presidencial e irromperam nele derrubando durante a sua passagem uma parte do muro exterior que o rodeava.

Poucos dias depois, quando o mundo já tinha festejado o Primeiro de Maio, dia dos Trabalhadores, e com a grata coincidência de ser o mês de nascimento e homenagem ao herói eterno do país, Saigon foi batizada para sempre com seu nome: Cidade Ho Chi Minh.

O general Vo Nguyen Giap, a quem encontramos de maneira fortuita nas praias de Nha Trang rumo ao Saigon ainda com cheiro de pólvora, nos confirmava o sucesso rotundo e definitivo da guerra de todo o povo.

Em 30 de abril de 1975 não somente caiu o regime fantoche saigonês e com ele a ocupação do então Vietnã do Sul que o governo dos Estados Unidos tinha sustentado a um preço desmesurado desde a derrota dos colonialistas franceses na década dos anos 50 do século passado.

Caiu um regime despótico, cruel e sanguinário, instalado pelo imperialismo no Vietnã do Sul a sangue e fogo, com o que tinham estancado no paralelo 17 a revolução nacional democrática liderada por Ho Chi Minh.

Foi avariada uma estratégia depurada dos imperialistas para produzir o neocolonialismo estadunidense em série, e sepultada a expansão norte-americana no Sudeste da Ásia. E, naquele tempo, foi frustrada a possibilidade de que a experiência estadunidense em Indochina fosse aplicada na América Latina, África e outras áreas de influência norte-americana.

No plano corporativo, também ficaram para traz as ambições desmedidas das multinacionais de arrancar até as últimas riquezas naturais da Península.

No estratégico: saiu derrotada a repisada e doentia sede de vitória por meio das armas que propugnava o chamado "mundo livre".

Vietnã, realmente, deve ter marcado o limite até o qual podia chegar o expansionismo norte-americano.

Com Afeganistão e Iraque, e com o estabelecimento de bases militares na Colômbia, as últimas administrações estadunidenses, inclusive a de Barack Obama, demonstraram que eles não querem aprender as lições da história.

Por isso mesmo, a experiência do Vietnã não pode ser desaproveitada por América Latina nestes tempos de tanto perigo, ameaças e aventureirismo.

Por Luis Manuel Arce - Prensa latina (.cu) - 27 de abril 2010

(*) O autor é editor da Prensa Latina e foi correspondente de guerra no Vietnã.