Nascida em Saigão, no Vietname, aos dez anos Kim Thúy abandonou o país natal num barco. Esta é a história dela contada através de Nguyến na Tịnh, que quer dizer «interior pacífico» em vietnamita. O romance foi distinguido, em 2010, com o prémio RTL-Lire (França), assim como o Governor General (Canadá).

Através de um relato íntimo, este «Ru» recupera fragmentos de memórias de uma refugiada vietnamita, que viu a sua infância dourada em Saigão interrompida pela chegada do comunismo. A família é obrigada a fugir de barco e a refugiar-se num campo na Malásia. Por fim, chega ao Canadá, onde tem que começar tudo de novo.

Um dos excertos marcantes deste livro é o que descreve o campo de refugiados: «Se um coreógrafo tivesse estado debaixo daquela lona num dia ou numa noite de chuva, teria certamente reproduzido a cena: vinte e cinco pessoas de pé, crianças e adultos, cada uma delas com uma lata de conserva na mão para apanhar a água que escorria da lona, por vezes a jorros, por vezes gota a gota. Se um músico lá estivesse estado, teria ouvido a orquestração de toda aquela água a bater na superfície das latas de conserva. Se um cineasta lá tivesse estado, teria captado a beleza daquela cumplicidade silenciosa e espontânea entre pessoas miseráveis. Mas só nós lá estávamos, de pé naquele soalho que se afundava lentamente no barro.»

Kim Thúy dedica este livro, cujo título significa «canção de embalar» (em vietnamita), à gente do seu país. É um relato íntimo e auto-biográfico de um percurso triste mas com um final feliz.

Com um grande poder evocativo, vai discorrendo sobre a sua história. Fala da mãe que, apesar de abastada, sempre insistiu para que os filhos aprendessem a ser humildes, soubessem afagar o chão, lavar a loiça, andar descalças… A lição só foi aprendida mais tarde, quando a própria protagonista foi mãe e percebeu o quão importante é dar os instrumentos para que se possa sonhar.

«Ru» fala-nos de refugiados que se vêm obrigados a reinventarem-se. Neste caso, de uma família vietnamita que chega a um Canadá onde as mulheres têm «ancas cheias oscilantes e nádegas arredondadas», ao contrário deles, «angulosos, ossudos e rijos». Naquele país, voltam a ser crianças.

Nguyến na Tịnh teve que aprender que nunca devemos sentir saudades daquilo que deixámos para trás, o que explica, segundo ela, porque motivo agora nunca parte levando mais do que uma mala. O resto nunca consegue ser verdadeiramente seu. E fica contente por mudar de casa, porque assim tem a oportunidade de reduzir os seus pertences, de deixar que a memória se torne realmente selectiva.

«Ru» embala-nos nesta travessia.

Por Sandra Gonçalves - Diário Digital - 22 de Março de 2011