Em um comunicado publicado nesta semana, o ministro da Cultura, Esportes e Turismo do Vietnã deixou claro que as empresas envolvidas no chamado “turismo de bílis de urso” poderão perder os seus alvarás e deixar de funcionar. O comunicado foi divulgado em todo o país depois que a ENV mostrou, no mês passado, que criadores de ursos da província de Quang Ninh continuam extraindo a bílis de seus ursos, tendo como principais clientes turistas coreanos.

“Esta notícia é fantástica e evidencia que o governo vietnamita reconhece o mal que a criação de ursos vem fazendo à indústria turística do país. Conclamamos as autoridades vietnamitas a intensificarem seus esforços no sentido de assegurarem o fim da criação de ursos para a extração de bílis," informou Dave Eastham, que está à frente da Campanha Contra Ursos em Cativeiro, promovida pela WSPA.

De acordo com o informe do governo, a Administração Nacional de Turismo do Vietnã (VNAT, na sigla em inglês) exige que “todas as agências ligadas ao Esporte, à Cultura e ao Turismo promovam atividades visando à conscientizaçãodas pessoas e das empresas quanto às suas responsabilidades na proteção da vida selvagem. Elas deverão se empenhar para levar a cabo todas as recomendações da comunidade internacional e dos órgãos governamentais envolvidos na proteção da vida animal, cooperando com as autoridades a fim de que todas as violações sejam tratadas dentro dos rigores da lei”.

A VNAT também afirma que estes mesmos órgãos deverão “proibir todas asempresas de turismo de organizarem passeios que levem turistas às ‘fazendas de ursos’, onde tais animais são ilegalmente mantidos e têm a sua bílis extraída”. No caso de violações flagrantes da lei, “A VNTA poderá cassar a licença para funcionamento da empresa”. O documento, por fim, alerta para “o impacto negativo que tal prática exerce sobre a imagem do Vietnã como um país amigo e atraente, prejudicando a natureza saudável e sustentável das atividades de turismo locais”.

TranViet Hung, vice-diretor da ENV, salientou que “as autoridades vietnamitas estão a par da extração ilegal de bílis de urso já há bastante tempo, e que foi necessária a publicação de um artigo para que eles tomassem alguma iniciativa”. Hung elogiou “as palavras duras do Ministério da Cultura, dos Esportes e do Turismo do Vietnã”, acrescentando que a ENV “espera ver processados e punidos os praticantes deste tipo de comércio ilegal”.

A WSPA e a ENV, em conjunto com as ONGs Free the Bearse Animals Asia Foundation, vêm promovendo a Vietnam Bear Task Force (Força-Tarefa em prol dos Ursos do Vietnã) a fim de evitar tal tipo de turismo. Embora proibida por lei, a bílis de urso ainda é fartamente comercializada no país, onde aproximadamente 3.000 ursos, capturados em seu habitat natural, continuam sendo mantidos, em terríveis condições, nas ‘fazendas de ursos’, que também estão proibidas no Vietnã desde 2005.

A bílis é regularmente extraída da vesícula dos ursos com o uso de uma seringa, infligindo enorme sofrimento aos animais. O produto é utilizado pela medicina tradicional do país como um símbolo de status. Os ursos são mantidos em jaulas pequenas e inapropriadas, quase sempre até o fim de suas vidas (em torno de 20 anos), sem qualquer espaço para se moverem ou sequer se manterem de pé.

O Vietnã é país-membro da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas da Flora e da Fauna Selvagem (CITES, na sigla em inglês), subordinada à ONU, tendo se comprometido a assegurar que o comércio internacional de espécimes de animais e de plantas selvagens não signifique qualquer ameaça à existência destas espécies. O urso preto asiático é o mais procurado para a prática de extração de bílis e está listado no apêndice da CITES. Também, de acordo com o Decreto 32/2006 do governo vietnamita, os ursos são catalogados como uma espécie ameaçada de extinção e, portanto, a comercialização destes animais e de seus subprodutos é considerada ilegal.

Apesar da disponibilidade de várias alternativas florais, a bílis de urso ainda é muito usada por grande parte da medicina tradicional asiática para fins vários, como a diminuição de febres, a proteção do fígado, a melhora da visão e a quebra de pedras vesiculares, sendo também utilizada como antiinflamatório. Todavia, vários especialistas deste tipo de medicina espalhados pelo mundo são unânimes em afirmar que a bílis de urso é perfeitamente substituível. A WSPA, juntamente com outras organizações, promoveu pesquisas com tais especialistas e descobriu que há inúmeras alternativas à base de plantas para fins de tratamento médico, afora as outras opções produzidas sinteticamente.

A lucrativa estância turística de Ha Long City, na província de Quang Ninh, no nordeste do país, continua sendo um dos destinos mais procurados por turistas coreanos, que assistem às extrações de bílis e adquirem o produto a fim de levá-lo ilegalmente para a Coréia. A WSPA espera que, com a intensificação da repressão governamental, este tipo de comércio chegue ao fim.

Por Izabela Bringel - WSPA/EcoAgência - 24 de Março de 2011